Os leitores falam às Senhoras: Nuno Medeiros (professor e investigador)


Queridas Senhoras,

Nuno Medeiros é docente e investigador no ensino superior. Uma das suas áreas de investigação é a Sociologia e história do livro, da edição e da leitura. Acaba de publicar O Livro no Portugal Contemporâneo (Le Monde Diplomatique / Edições Outro Modo, 2018), e é também autor da obra de referência Edição e Editores: O Mundo do Livro em Portugal 1940-1970 (Imprensa de Ciências Sociais, 2010). Filho de livreiros (os antigos proprietários da livraria Culsete, em Setúbal), cresceu entre livros ("aprendeu a andar agarrado a estantes"), e acabou por tomá-los também como objecto de estudo. Antes dos livros, "cresceu a ler revistas aos quadradinhos, sobretudo brasileiras; e é muito agradecido por isso." Acedeu prontamente a responder ao nosso questionário.


1. O que está a ler neste momento?

Actualmente estou a ler textos relativos a uma das minhas áreas de pesquisa, sociologia e história da cultura e da edição de livros. Na literatura, embora menos expeditamente, vou caminhando em dois livros: A Troca, de David Lodge, e o colectivo Bogotá 39. Nuevas voces de ficción latinoamericanas.

2. O que leu antes e o que vai ler a seguir?

Li: 5 Obras-Primas da Novela Contemporânea, uma edição antiga da Portugália Editora, belíssima. Penso ler: The Sound and the Fury, de William Faulkner, ou Blankets, a banda desenhada de Craig Thompson.

3. Conte-nos uma memória de infância relacionada com livros

Tenho muitas, como filho de livreiros, professores de português e cultores do livro e da leitura. Talvez destaque a memória de levar livros da livraria para casa à socapa, lê-los clandestinamente com infinito cuidado e devolvê-los impecáveis e sem destrato às estantes para venda.

4. Que livros marcaram a sua adolescência?

Não foram poucos, sobretudo de banda desenhada e pequenas colecções enciclopédicas, mas também romances e contos. Vários do Bilal e do Moebius (quase todos, para ser franco). Muita banda desenhada franco-belga, mas também os livros aos quadradinhos brasileiros e os belos trabalhos de José Ruy. Não esqueço os livros da colecção Uma Aventura, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, ou a série Os Sete, de Enid Blyton.

5. Um local público onde goste de ler

Dantes, no autocarro. Agora, em público, só nas férias, onde for.

6. O seu recanto preferido de leitura (em casa)

Actualmente, no quarto, sala ou numa varanda fechada comprida e soalheira.

7. Uma biblioteca importante para si

A Biblioteca Nacional.

8. As livrarias que costuma visitar

Se estivermos a falar de livrarias físicas, serão a Culsete e a Hémus, em Setúbal. O resto é em Lisboa, mas muito mais esporadicamente, incluindo lugares como a Bertrand e alguns alfarrabistas.

9. Uma editora de que goste particularmente

São bastantes. Por isso, referirei uma editora portuguesa que já não está em actividade: &etc.

10. Que livros gostaria de reler?

Praticamente todos os livros de Will Eisner. E um sortido com Eça de Queirós, Mário-Henrique Leiria, Luiz Pacheco, Fernando Pessoa, Italo Calvino e Oscar Wilde. Para não falar de outro tipo de livros, onde constarão O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, O Processo Civilizacional, A Invenção da Tradição, A Imaginação Sociológica ou Argonautas do Pacífico Ocidental.

11. Que livros está a guardar para ler na velhice?

Todos os que não conseguir ler antes. Mas a peleja que mais anseio e prospectivo será a tentativa de ler a obra completa de António Vieira e o Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

12. Acessórios de leitura que não dispensa

Óculos, mas cada vez menos.

13. E se um livro não prende, põe-se de lado ou insiste-se?

Depende. Um certo ethos manda insistir, mas não é raro que a melhor solução seja a desistência ou a suspensão para ataque posterior.

14. Costuma ler sobre livros? Quais são as suas fontes?

Desde há cerca de vinte anos, a maior parte das minhas leituras é justamente sobre o tema do livro. As fontes são essencialmente livros e textos académicos e biográficos.

15. Uma citação inesquecível que queira dedicar às Senhoras da Nossa Idade

“Ninguém entende ninguém. Tudo é interstício e acaso, mas está tudo certo.” Fernando Pessoa

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