Pretérito perfeito, futuro condicional




Queridas Senhoras,

Ursula Todd nasce a 11 de Fevereiro de 1910 e morre no mesmo dia, com o cordão umbilical enrolado à volta do pescoço. Ou não. Ursula vive e morrerá mais tarde de muitas mortes. Afogada, violada, levada pela gripe espanhola, espancada pelo marido, abatida a tiro em Munique, bombardeada na guerra numa cave em Londres.

Viverá também muitas vidas. Terá vários irmãos. Dará longos passeios nos bosques de Fox Corner, a casa que a mãe, Sylvie, baptizou em honra da raposa que ronda por lá. Fará o seu grand tour com Hugh, o pai carinhoso e atento, que falhou por pouco o seu nascimento por causa de um nevão. Ou não.

Vida após Vida é um romance fascinante que brinca com o tempo e as possibilidades. Há uma técnica ou efeito narrativo, muito em voga em séries de TV, que consiste em contar o mesmo acontecimento visto por diferentes pessoas, diferentes perspectivas. Aqui há um pouco disso mas mais ainda.

Trata-se de traçar e narrar vários caminhos possíveis na vida da mesma pessoa e dos que com ela se relacionam. Pequenos incidentes, atitudes aparentemente inócuas podem alterar o curso dos acontecimentos para sempre. Ursula é perseguida pelo futuro, é atacada por terrores súbitos, visões incertas de desgraças iminentes. O passado também não a larga e, para onde quer que vá, recordará sempre os bosques de Fox Corner da sua infância e até a pequena lebre prateada que brilha e se agita no berço dos bebés Todd.

O destino está traçado. Ou não. Ursula pode, afinal, decidir. Pode submeter-se a uma investida súbita de um latagão americano, amigo do irmão, ou espetar-lhe um estalo bem assente nas trombas e assim evitar uma gravidez precoce, um aborto mal feito e a morte. Pode escolher viajar e alargar o seu mundo. Pode casar com um marido violento que a irá matar ou entregar-se a amantes generosos. Pode ficar em Inglaterra ou viajar para a Alemanha e conhecer uma tal de Eva Braun…


Beijinhos a todas,

Céu

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