De coração



Crédito da foto: Magda Bizarro

Queridas Senhoras,

não sei se sabem algum poema de cor. Inteiro é difícil mas de certeza que vos vêm à cabeça versos de diferentes poemas. A mim, ocorre-me logo, não sei porquê, Aquela triste e leda madrugada. A Alice, quando tinha três anos, sabia recitar de cor, completo, Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura. E julgo que também o Pescador da barca bela / onde vais pescar com ela.

Em jeito de prenda de aniversário antecipada, ganhei um bilhete para ver ontem a peça By Heart, estreada em 2013, agora em reposição no Glorioso Verão - Festival Shakespeare, no Teatro Nacional D. Maria II. A peça é do Tiago Rodrigues, ex-aluno do Liceu da Amadora, director artístico do Nacional desde 2014 (A-ma-do-ra! A-ma-do-ra! A-ma-do-ra!).

Saber by heart, ou seja de cor, é interiorizar. Decorar matéria para o teste não tem grande interesse mas porque é, então, tão bonito e reconfortante saber poemas, ou versos, de cor?

Há aquele livro, o Fahrenheit 451, do Ray Bardbury, que Truffaut adaptou ao cinema, que é um dos textos de apoio a esta peça. Não li o livro nem vi o filme mas o enredo é conhecido. Numa futurista sociedade distópica, os livros são proibidos e queimados. A resistência ao regime consiste num exército de soldados-livro, que memorizam as obras para que estas não se percam.

Em By Heart Tiago Rodrigues chama dez pessoas do público ao palco. Ao longo do espectáculo essas pessoas irão aprender um soneto de Shakespeare. Tão simples quanto isso. Ou talvez não. É difícil aprender um poema. Para saber um poema de cor, temos de o interiorizar ou mesmo ingerir e digerir ao longo dos anos. Aquela triste e leda madrugada.

By Heart é uma peça sobre teatro, livros, poesia, memória e uma avó transmontana que gostava de ler. No final da vida, já depois dos 90 e com pouca vista, pediu ao neto que lhe indicasse um único livro. Iria decorá-lo para quando já não fosse capaz de ler.

Decorar. Não é tão bonita a palavra, afinal?

Repitam comigo, agora:

Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim.

William Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura

(Nota: a peça está em cena até sábado, 23 de Julho. Julgo que para o último dia ainda há bilhetes).

Beijinhos a todas,

Céu

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