Alice no país dos call-centers

KIDZANIA

Queridas Senhoras,

aqui há dois anos a Alice foi à Kidzania com a escola. Adorou e nunca mais se calou com isso. É a melhor coisa do mundo, é o assunto preferido dela, não se cansa, não muda de opinião. Manteve-se consistente e inabalável ao longo destes dois anos. Toda ela sorri quando fala da Kidzania.

É claro que nos pediu várias vezes para lá voltar mas fomos sempre dizendo que não. Afinal já tinha ido com a escola, viu, está visto, aquilo é caro para ir a família toda, fica num centro comercial mastodôntico no meio de um labirinto de estradas e viadutos por isso fomos desviando as atenções. Não somos fundamentalistas mas procuramos evitar estes locais mega, hiper não sei quê, encafuados nos centros comerciais.

Mas afinal qual é o fascínio daquilo? Podemos trabalhar na Optimus e fazer hambúrgueres no McDonald’s! Uau. E eu que pensei que era precisamente isso que andávamos a evitar. Intriga-me pensar até que ponto aquilo é realista. Será que também têm filas no Centro de Saúde, cartas para apresentar no Centro de Emprego? Se é para ser realista…

Anda uma pessoa a tentar proporcionar “experiências culturais diversificadas” e depois é vencida por estes formatos internacionais estudados para formar consumidores (estou a brincar… mais ou menos).

Levamo-los a passear em praias desertas, a nadar com os peixinhos, a navegar em grutas marinhas misteriosas, a apanhar amoras silvestres no chão do rio, a ouvir histórias da Tia Odete, a conhecer a casa velhinha dos bisavós, a ver mil paisagens diferentes (“vejam a paisagem, suas bestas” como dizia a vô Nanda, sem ofensa, no tempo em que não havia blogues de parentalidade), e depois é isto. De paisagens a Alice já nem quer ouvir falar.

Ao pensarmos numa prenda para o 8º aniversário da Alice, tornou-se óbvio que só podia ser um bilhete para a Kidzania. Toma lá filha!, MUITOS PARABÉNS e leva lá a bicicleta. Ou melhor, leva lá a tua querida Kidzania que quando recebeste a bicicleta não ficaste tão contente.

Eu vou contigo e sempre quero ver se isso é assim tão bom. Quem sabe venho de lá cheia de vontade de vender telemóveis. Ou PPR’s ao balcão de uma seguradora ou instituição bancária.

Beijinhos a todas,

Céu

Comentários

  1. Olá. Antes de mais, parabéns pelo texto fantástico (mais um). Compreendo perfeitamente o teu ponto de vista até porque partilho muitas das opiniões aqui descritas.

    A questão que me coloco sempre que estas dúvidas me assaltam é: será que esse mundo de poesia e sonho com que os tentamos alimentar sempre que podemos os está a preparar convenientemente para o mundo-cão que mais tarde, inevitavelmente, eles encontrarão pela frente?

    Não tenho uma resposta para esta pergunta (se tivesse dava palestras...) - ela está cheia de prós e contras - mas, à falta duma resposta melhor, utilizo o velho "nem tanto ao mar nem tanto à terra". E de vez em quando tento entalar "umas Kidzanias" no meio dos programas habituais.

    Lá dentro eles não deixam de se projectar em profissões que já nós, no nosso tempo, ambicionávamos (médico, bombeiro, piloto de automóveis). Claro que é tudo patrocinado mas... o que não o é nos dias de hoje? Qualquer teatro ou Festival do Panda da vida deita branding por todos os poros...

    Mas para mim, a grande proeza da Kidzania é a menos provável: introduzir nas crianças o conceito de "sociedade de consumo". É um conceito difícil de explicar (principalmente para quem como eu foge dele a sete pés) mas absolutamente pertinente: eles vão de facto ter que um dia trabalhar para ganhar dinheiro para depois gastá-lo naquilo que mais precisam ou, na pior das hipóteses, que mais desejam. Para mim, é isso que eu desejo que os meus filhos aprendam naquelas horas que passam ali fechados sem ver o sol... ao menos isso!

    Continuo a preferir que pedalem à beira rio mas não consigo deixar de pensar que, tão importante quanto alimentar o sonho, é também acordá-los para a realidade.

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  2. Olá! Muito obrigada pelo comentário! A minha atitude também é mais ou menos essa, sou toda pelo ar livre e pelas coisas bonitas. Mas já fomos ao Festival Panda (jurei para nunca mais) e já caímos em mais umas quantas armadilhas. E continuaremos a cair. Dou o benefício da dúvida à Kidzania porque a minha filha está mesmo "vidrada" e já tenho ouvido a adultos a dizerem que é fantástico. É engraçado ter referido que eles vão lá aprender que têm de trabalhar para ganhar dinheiro para depois gastar.... ainda ontem ao jantar eu referia esse ciclo que se procura incutir por muitas vias como se não houvesse alternativa. Mas há, há quem consiga escapar :) Mais uma vez, muito obrigada pelo comentário. Bom fim-de-semana (vai estar a chover, por tanto bom para kidzanias e centros comerciais :) )

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