Fim-de-semana cultural para aquecer (entre salas cheias e semi-vazias)

 

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Queridas Senhoras,

aqui vai o relato de um fim-de-semana agitado que ainda deu para aquecer já que parece que chegou o frio. Brrrrr!

Logo na sexta à noite, o clã feminino da família (eu, a minha irmã e a minha mãe) conseguiu conjugar agendas para uma das suas já lendárias saídas teatrais. A cada quatro meses, mais coisa menos coisa, lá nos conseguimos juntar (com o apoio inestimável do clã masculino na retaguarda) para uma peça em geral criteriosamente escolhida (a última, em Julho passado, foi uma encenação do Pedro Mexia por isso, estão a ver, levamos isto mesmo a sério).

Desta vez a escolha recaiu sobre Três dedos abaixo do joelho, o muito aclamado trabalho da companhia Mundo Perfeito, em reposição no Teatro Maria Matos no âmbito da festa do 10º aniversário daquele e de outro grupo teatral (Mala Voadora).

Casa cheia, à pinha mesmo, para ver a encenação do levantamento que Tiago Rodrigues fez dos relatórios da censura ao teatro antes do 25 de Abril. A partir das observações, dos cortes, dos ditames dos próprios inspectores, conta-se a história do que era fazer teatro em Portugal no tempo de Salazar e presta-se uma bela homenagem a quem trabalhava nessas condições. São referidas várias companhias, algumas que eu desconhecia, como o Teatro Moderno de Lisboa que repetidamente submeteu à apreciação do Secretariado Nacional de Informação o pedido de exibição da peça Andorra de Max Frisch, por três vezes recusado. Outras referências são mais facilmente identificáveis e, Marta, também por lá aparece o teu TEC – Teatro Experimental de Cascais.

Dois actores, Isabel Abreu e Gonçalo Waddington, dão corpo a esta incursão ao passado do teatro quando as palavras eram proibidas, rasuradas, substituídas. E os cortes efectuados, a censura ela própria, é levada à cena, com as palavras todas. Guerra-puta-revolução-escravo. A certa altura faz-se uma espécie de poema com as palavras cortadas (fez-me lembrar a cena final do Cinema Paraíso com a sequência de beijos roubados).

No sábado à tarde, fomos à biblioteca da Amadora assistir à leitura de Romeu e Julieta inserida da iniciativa Revelar Shakespeare aos Mais Novos. Aqui a casa não estava cheia, longe disso, nem meia sala. Mas estavam lá dois actores do Teatro dos Alóes que nos proporcionaram um momento especial, com a leitura de uma versão infantil da clássica tragédia. A actividade era de participação livre mas estava muito pouca gente. Lembrei-me de uma crónica da Inês Pedrosa em que ela referia (a propósito do estudo recente que classifica Portugal em último lugar, entre os países europeus, no que se refere à participação cultural) que as pessoas afirmam não frequentar bibliotecas por serem caras, desconhecendo que são gratuitas. Não só o acesso é livre, como organizam muitas actividades interessantes em geral grátis ou com preços simbólicos. Custou-me ver tão pouca gente na leitura de Romeu e Julieta. Se não houver gente, não fazem mais, como é natural.

Por fim, hoje à tarde, fomos todos ver a Alice no País das Maravilhas pelo Quorum Ballet, uma versão em bailado da história mais conhecida cá em casa. Tão envolvente, colorida e musical que até os mais pequeninos (numa sala repleta) estiveram sossegados, de olhos arregalados (quer dizer, na verdade o João adormeceu por um bocado mas isso é porque ele acha que é crescido e já não precisa de dormir).

Acho que terminámos em beleza!

Beijinhos a todas,

Céu

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