Depressão pós-parto

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Imagem: www.fotocommunity.com/pc/pc/display/22807797

Queridas Senhoras,

a propósito deste post, dei por mim a pensar na minha própria depressão pós-parto, depois de ter a Alice. Fica o testemunho, uma vez que nunca falei aqui deste assunto, e ainda pode ser que sirva para ajudar alguém que leia isto.

Olhando para trás, recordo sobretudo uma sensação de completa falta de controlo. A sensação de andar a pairar, de não ser capaz de tomar decisões, de me limitar a deambular entre o dia e a noite sem muita noção de nada. Cada mulher sentirá coisas diferentes (julgo eu porque, apesar de tudo, nunca falei muito disto com ninguém), eu senti sobretudo que tinha perdido todas as minhas rotinas e não sabia o que fazer. Não sabia o que sentir.

As rotinas têm muita importância na minha vida, talvez de mais, não sei. São elas que me mantém a funcionar. Se as rotinas mudam drasticamente, de um momento para o outro, deixo de funcionar. A ponto de deixar de saber quem sou. Depois de ter um filho, a mudança é tão drástica que até o básico dos básicos – a distinção entre o dia e a noite – deixa de existir. Esses dois períodos claramente separados, que ajudam à nossa organização mental, à limpeza do cérebro, e nos garantem o primordial descanso, simplesmente desaparecem. As 24 horas do dia sucedem-se, intermináveis, ininterruptas, com breves e alucinados períodos de descanso. O cansaço físico é brutal, não nos deixa pensar. E parece que já não conseguimos pensar. Que é feito de mim, onde é que eu estou?, lembro-me de perguntar.

Como passou? Não sei, foi passando. Estava integrada num grupo de ginástica pós-parto e isso ajudou, embora nunca tenhamos tido conversas muito profundas. Mas ajudou estar com outras mães e ter ali um objectivo, fazer os três meses de curso, ter um local de convívio fora das rotinas domésticas e do bebé, no mundo normal. Sair de casa, andar a pé, apanhar ar fresco na cara, conversar, estar com pessoas, ir tentando a aproximação a uma vida normal, sabendo que demorará meses até conseguir essa normalidade.

Sei que aquela sensação de falta de controlo inicial é terrível, não se parece com nada. Não tem nada a ver com a lufa-lufa em que vivemos depois de ter filhos, quando regressamos ao trabalho e a vida se normaliza. Aí andamos a correr de um lado para o outro mas sabemos (mais ou menos) o que estamos a fazer. No início não somos nós, não estamos em nós, estamos algures perdidas à espera de ver a luz ao fundo do túnel.

Beijinhos a todas, boa semana,

Céu

Comentários

  1. Querida Céu, pensei imediatamente em escrever um post em resposta ao teu mas depois ocorreu-me que já escrevi. No meu caso, foi assim: http://www.senhorasdanossaidade.com/senhoras-da-nossa-idade-18/

    E foi preciso um ano de antidepressivos para me voltar a sentir eu outra vez. Somos uma família monofilial exactamente por isso. Porque demorámos demasiado tempo a sermos nós outra vez.

    Obrigada pelo teu post

    Beijinhos

    Marta

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  2. Lembro-me bem desse teu texto, Marta. É um murro no estômago, como se costuma dizer. Obrigada, beijinho

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  3. Angela Coelho04/11/13, 16:18

    Queridas
    Estou a reler na diagonal um livro que poderá ajudar a fazer sentido dos sentidos no pós-parto, mesmo que seja lido muito tempo depois. Recomendo todo o trabalho e visão da autora - Laura Gutman - mas este titulo, é especialmente importante para as mães que viveram sentimentos de desorientação no pós-parto. Chama-se "A maternidade ou o encontro com a própria sombra" e podem encontra-lo em português do Brasil à venda em Portugal aqui: http://www.nasceremliberdade.blogspot.co.uk/2013/07/crescendo-com-maternidade.html . Um beijo grande às duas. Quem sabe se ainda vão a tempo de descobrir que, afinal, não sofreram de depressão pós-parto :-)

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  4. Olá Angela, muito obrigada pela partilha! um beijinho

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  5. Obrigada, Ângela, beijinhos grandes! :)

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